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Estilos

 

Embora o estudo da arquitetura segundo os estilos, isto é, de acordo com conjuntos característicos de formas reconhecíveis nos edifícios, seja muito redutor, não deixa de ter certa utilidade como primeira abordagem ao conhecimento das obras. O estudo isolado das formas levou a admitir que a evolução dos estilos fosse cíclica, iniciando-se normalmente com algum primitivismo ou arcaísmo, passando, depois, para um momento de equilíbrio, frequentemente adjetivado como clássico, e acabando num período de exuberância, por vezes dramática, individual e extravagante.

 

O que do Mosteiro da Batalha nos chegou (já não existem dois claustros do século XVI e suas dependências anexas) é eminentemente gótico. Na igreja, na sacristia e no Claustro Real, o primeiro arquiteto, Afonso Domingues, serve-se de uma linguagem a que, dentro do estilo gótico, se convencionou chamar radiante, correspondendo ao momento clássico da arquitetura desse período.

 

Com a chegada de Huguet, que veio substituir Afonso Domingues, por morte do velho mestre, assiste-se à introdução na Batalha, o mesmo é dizer em Portugal, do reportório da arquitetura gótica flamejante. A palavra flamejante deriva do termo latino flama, que significa chama e ganha sentido no gótico final devido ao facto de, nas suas decorações e estruturas, aparecer com frequência o arco contracurvado, com a forma aproximada de uma chama. Por ser um momento de internacionalização da arte gótica, designa-se o flamejante igualmente por gótico internacional. Do gótico flamejante, na arquitetura, é próprio não apenas o arco contracurvado, que aparece constantemente na Batalha, mas também a complexificação do desenho de certos elementos estruturais como as nervuras das abóbadas ou as colunas, normalmente agrupadas em pilares. Vistas em corte transversal, as nervuras passam de uma forma de quadrado com os cantos boleados, no radiante, para a forma triangular, no flamejante. As colunas vão conservar o fuste cilíndrico mas tanto a sua base como o cesto do capitel deixarão de ser redondos para passarem a ser facetados. Nos capitéis e nos fechos ou chaves das abóbadas, as plantas, flores e frutos que habitualmente os preenchem vão deixar de estar organizados em andares ou fiadas para adquirirem movimento e uma certa exuberância. Admite-se que Martim Vasques tenha sucedido a Mestre Huguet sem alterações de estilo.

 

Em meados do século XV, com o Claustro de D. Afonso V, Fernão de Évora traz à obra uma mudança que não é explicada pela teoria cíclica dos estilos: à exuberância do flamejante vai contrapor um gótico totalmente despido de decoração (exceção feita às chaves das abóbadas), que faz lembrar edifícios cistercienses anteriores à Batalha. Este momento foi batizado por Vergílio Correia com o nome de “gótico linear”. Tal como nos edifícios de Cister, as nervuras são de secção quadrangular, com arestas chanfradas, e assentam frequentemente em mísulas. Conservam-se, porém, as formas facetadas, passando também os fustes das colunas a possuí-las.

 

Nos últimos anos do século XV e nas primeiras duas décadas do século XVI, vai aparecer, também pela primeira vez na Batalha e em Portugal, o chamado estilo manuelino, que, conforme o nome indica, corresponde cronologicamente ao reinado de D. Manuel I. O genial criador da linguagem arquitetónica que lhe corresponde foi o arquiteto Mateus Fernandes. A sua obra, patente nas bandeiras das janelas e no lavabo do Claustro Real, bem como no portal das Capelas Imperfeitas, é uma explosão de exuberância, apenas adiada pelo Claustro de Fernão de Évora. A arquitetura ganha valor plástico como se de uma escultura monumental se tratasse. No entanto, nas obras de Mateus Fernandes, mantém-se a disciplina geométrica de base flamejante que há muito fazia parte da tradição batalhina. Em boa verdade, a base geométrica não apenas se manterá como se vai ainda complexificar: os arcos passam a ter múltiplas interseções e planos, e as formas facetadas vão curvar-se para se intersetarem também em diversos planos.

 

O manuelino é considerado um momento do gótico final, com características nacionais, tal como, na vizinha Espanha sucedeu com o plateresco. No entanto, a arquitetura manuelina (e a plateresca) contém em si o germe da modernidade, sendo um dos casos em que se revelam as limitações da análise estilística, pois encara os momentos terminais como períodos de decadência e extinção. Por outro lado, apesar de se poder reconhecer estilisticamente uma arquitetura manuelina, é igualmente certo que existem grandes diferenças entre a obra de Mateus Fernandes e, por exemplo, a de João de Castilho (oriundo, aliás, da tradição plateresca), de Boitaca ou dos irmãos Arruda. É esse o motivo pelo qual a obra das partes mais altas das Capelas Imperfeitas, cujo arquiteto não se encontra documentado, possui um caráter tão distinto do grande portal de Mateus Fernandes.

 

Como nota dissonante, assoma por cima daquele portal uma tribuna maneirista, obra do arquiteto Miguel de Arruda, que ainda ensaiou alguns compromissos no encaixe com a obra manuelina. Maneiristas eram também os claustros desaparecidos.

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